08/06/2023 às 11h54min - Atualizada em 08/06/2023 às 11h54min

Moda evangélica

Redação

Mulheres cristãs estão desafiando os estereótipos associados à moda das roupas de igreja e mostrando como a experiência religiosa está diretamente relacionada aos comportamentos de vestir e às escolhas de consumo de moda. Um exemplo inspirador é Eloá Araujo, uma jovem que cresceu em um ambiente evangélico e experimentou restrições em relação ao uso de roupas pretas, algo que não era bem visto no meio religioso em que ela estava inserida.
 
Atualmente, Eloá vive em São Paulo e possui um guarda-roupa repleto de tons sóbrios e terrosos, incluindo o preto que era considerado proibido. Ela frequenta sua igreja vestindo suas roupas preferidas, desafiando assim os padrões estabelecidos. Eloá faz parte de uma geração de mulheres que estão transformando a percepção da moda evangélica, que antes era associada a um estilo mais romântico, com vestidos midi e babados, conforme vestia sua mãe.

 
Para Eloá, essa transformação no modo de se vestir está intrinsecamente ligada à sua experiência de fé cristã e autodescoberta. Durante seu processo de tentar se encaixar em padrões pré-definidos, ela enfrentou questões relacionadas à distorção de imagem e distúrbios alimentares. No entanto, à medida que ela caminhava com Deus, esses problemas foram sendo superados e sua aceitação pessoal foi crescendo, refletindo-se em seu estilo visual.
 
Ao pensar sobre moda evangélica, é importante notar que as mulheres evangélicas baseiam suas escolhas de compra em fatores que vão além dos costumes religiosos. Essas escolhas podem incluir separar uma roupa especial para o culto ou frequentar lojas que compartilham a mesma fé. No entanto, essa pesquisa não deve ser vista como uma regra absoluta, como enfatiza Lays Pereira, uma professora do ensino médio.
 
Lays, que também é influenciadora nas redes sociais, recebe mensagens de seguidoras que se sentem inspiradas por ela a serem autênticas e não terem medo de serem elas mesmas. Muitas mulheres relatam que não usam certas roupas não porque não as acham bonitas, mas por medo do julgamento dos outros. Lays incentiva essas mulheres a resgatarem sua identidade e a se importarem apenas com o que Deus diz sobre elas, vivendo livres da necessidade de aprovação alheia.
 
A forma como as mulheres se vestem é diretamente influenciada pelo cristianismo, segundo Lays. Antes de comprar uma peça de roupa, ela questiona se estará glorificando a Deus com aquela escolha e qual mensagem estará transmitindo às pessoas ao seu redor. A imagem que manifestamos através das roupas reflete as convicções que carregamos por dentro.
 
Eloá também causa impacto nas mídias sociais, onde compartilha vídeos no Instagram e TikTok que inspiram outras mulheres evangélicas. Muitas delas têm experiências semelhantes e comentam sobre como o conteúdo de Eloá as encoraja a usar seus looks de culto em outras ocasiões, como ir ao shopping. Essas atitudes ajudam a romper estereótipos que ainda persistem em relação à moda evangélica. Eloá destaca que já foi solicitada a mostrar looks com saias, mas ela não se sente obrigada a usar certas roupas apenas para agradar ao nicho tradicional da moda evangélica. Ela está determinada a ser autêntica em suas escolhas e a expressar sua personalidade única através do seu estilo.
 
Em suma, a moda evangélica está passando por transformações significativas, impulsionadas por mulheres que desafiam estereótipos e expressam sua fé cristã por meio de suas escolhas de moda. Elas estão descobrindo sua identidade pessoal, superando padrões pré-estabelecidos e vivendo de acordo com suas convicções religiosas, sem perder a elegância e a autenticidade.
 
É importante ressaltar que os evangélicos não formam um grupo homogêneo. Eloá e Lays não pertencem a uma denominação que impõe restrições ao uso de certos elementos, como brincos, cabelo comprido ou calça para mulheres. Elas acreditam que essa escolha é relativa à vivência espiritual cristã de cada indivíduo em relação à santíssima trindade, principalmente em relação ao relacionamento com o Espírito Santo. Eloá argumenta que cada pessoa é livre para escolher com qual denominação se identifica.
 
Isso mostra que existem diversas formas de praticar uma religião, seja qual for. No cristianismo, é impossível considerar todos os evangélicos como um grupo homogêneo. A diversidade se reflete nas escolhas de vestuário. Rita Passos, formada em Comunicação Social pela PUC-Rio, destaca que a moda, embora tenha um reflexo coletivo, ainda é uma questão individual e subjetiva. Ela afirma que pensar em moda evangélica é refletir sobre a combinação da religião com o comportamento, e não necessariamente sobre dicotomias de estilo, formas e cores.
 
Por esse motivo, Rita acredita que o termo "moda evangélica" exclui muitas mulheres e pode criar um nicho mal compreendido. Ao longo dos anos, esse termo foi associado a mulheres que usam apenas saias ou vestidos, por exemplo. No entanto, ela observa que aos poucos isso tem sido desconstruído, graças à ampliação do uso das redes sociais e à presença de muitas mulheres que são referências de moda e também cristãs, mas não se limitam a um único estilo de roupa.
 
A flexibilização e a quebra de estereótipos no vestuário das igrejas acompanham a modernização e o crescimento do evangelicalismo no Brasil. Isso está ligado ao fluxo da internet e ao acesso e uso das mídias sociais no país. Líderes e instituições evangélicas historicamente têm uma relação simbiótica com a mídia, seja impressa, digital ou televisiva.
 
Essa realidade também é refletida nas estatísticas. Pesquisas de 2022 mostram que 31% dos brasileiros se autodeclaram evangélicos, sendo a maioria mulheres e pessoas negras. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que até 2032 essa porcentagem ultrapasse o número de católicos, que atualmente são a maioria no país.
 
A moda não fica alheia a essas transformações. Se os comportamentos dos fiéis e suas lideranças mudam, a forma como eles se vestem também muda. Em sua tese de mestrado, Rita Passos estudou a moralidade do vestuário feminino evangélico. Ela destaca a importância da hermenêutica bíblica, ou seja, como a interpretação da Bíblia interfere na forma como os cristãos entendem a moda, a estética e o comportamento.
 
Essas mudanças não se limitam apenas às mulheres. Eloá menciona o mudanças no vestuário de seu pai. Ele ainda frequenta a mesma igreja, mas não precisa mais usar terno e gravata como na época em que sua filha era adolescente. Rita observa que houve uma mudança significativa no vestuário dos homens cristãos. O terno e a gravata foram quase abolidos das denominações evangélicas por não estarem alinhados com os avanços contemporâneos. A maioria dos pastores prega vestindo calça jeans, camisa e mocassim. Essa também é uma forma de atrair fiéis e mostrar que a igreja é mais humana e próxima.
 
A pesquisadora cita o exemplo de André Valadão. Há dez anos, ele pregava  de terno e gravata, mas agora seu visual mudou completamente. Eloá observa o mesmo processo em casa com seu marido, que usa a mesma roupa para ir à igreja, ao shopping, à casa de amigos ou a um jantar.
 
No entanto, as mudanças estéticas não ocorrem de forma linear. Nas denominações tradicionais, como a Assembleia de Deus ou a Congregação Cristã no Brasil, essas mudanças ocorrem lentamente. Ainda assim, de acordo com Rita, existem dois elementos comuns em todas as denominações: modéstia e discrição. A moda evangélica não deve chamar atenção sexual explícita e não deve ser erótica.
 
Embora a moda evangélica seja uma experiência subjetiva, ela também tem impactos coletivos, incluindo questões de gênero e sexualidade. De acordo com Rita, isso também reflete a influência geral das igrejas na sociedade, inclusive na vida das mulheres. A igreja evangélica é um ente coletivo forte para as mulheres, mas elas ainda são limitadas em relação aos seus corpos no mundo.


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